Conheça um pouco da história de Ricky, o Ídolo Eterno

Ricky, Ídolo Eterno do Rubro Negro, em entrevista concedida há alguns anos ao site iBahia Esportes falou sobre a sua história no futebol. Vamos relembrar alguns trechos dessa entrevista para você, torcedor rubro-negro. A matéria foi de Gabriel Rodrigues.

Como foi seu início no futebol?

Quando eu tinha sete anos, eu voltei a morar com a minha avó, pois meus pais voltaram para a faculdade. Todo dia que ela ia para a feira ela comprava uma bolinha. Como eu estava bem na escola ela não se importava e sempre que eu pedia, ela me dava. O sistema de escola na Nigéria é o sistema britânico. Então, o menino fica internado na escola por três meses. Nessa época que eu fui, com 13, 14 anos, tinha uns campeonatos intercolegiais e nosso colégio foi jogar com outro. Para a minha surpresa, a gente ganhou de 6 a 0, e eu fiz os seis gols. Com 14 anos começaram a me levantar como um rei. Eu fiquei doido. Essa notícia chegou até o Sharks FC, da primeira divisão da Nigéria. O olheiro foi lá para me ver em um dos jogos que a gente fez e o time ganhou de 4 a 0. Eu fiz os quatro gols. Aí disseram: vem cá, querem falar com você. Me levaram para o clube, que ficava a uns 30 minutos do colégio. Eu nunca tinha visto na minha frente tipo mil reais e ele abriu a bolsa e disse: “você vai jogar com a gente, vai ser nosso jogador”. Aí eu comecei a treinar com esse clube, começaram a me acompanhar, e com 17 anos eu já estava jogando na seleção nigeriana. Naquela época era uma coisa inédita. E o treinador da seleção, que era o brasileiro Luciano, me indicou para o América-RJ.

E o primeiro contato com o futebol brasileiro?

Em janeiro de 1984, eu cheguei para fazer um teste no América-RJ e com 15 minutos o treinador Gilson Nunes mandou me tirar do jogo. Eu saí muito chateado, chorando e disse: “poxa, os cara foram lá na África me buscar e só me deixaram jogar 15 minutos”. Aí um dirigente do América-RJ na época chegou para mim e disse: “ele te tirou porque você já passou. Ele não precisa ver mais nada”. Aí mandaram ir buscar meus documentos e eu fiquei feliz. Fui com um dirigente do América-RJ lá na Nigéria. Eles negociaram meu passe com Sharks FC e me trouxeram para o Brasil.

E a chegada ao Vitória? Você já conhecia o clube?

Seis meses depois eu já tinha jogado o campeonato carioca pelo América-RJ e o Vitória foi contratar um ponta esquerda, o Framber, que era a contratação principal. Chegando lá, alguém disse: “olha temos aqui um nigeriano, leva ele também”. Eu vim como contra-partida. Chegando aqui, o Framber esqueceu o futebol e eu estava lá, tinha que fazer valer, porque era estrangeiro. E logo comecei a fazer gols. O Vitória demorou dois meses para me regularizar e o Aymoré Moreira dizia: “quando você entrar você vai fazer gol”. Isso me dava uma motivação muito grande. E minha estreia foi logo em um BaVi, e eu fui lá e fiz o gol.

Você sentiu dificuldades para se adaptar ao Brasil?

Minha adaptação foi rápida. Quando eu cheguei no América-RJ uma das condições era ter um professor para me ensinar o português. Eu não queria ficar vendo os outro atletas. Sempre depois dos treinos ele ia na minha casa para dar aulas. Foi bacana. Eu cheguei aqui e vi a alimentação parecida com a da África. Me assustei quando vi acarajé, dendê, vatapá, caruru, essas coisas que tem na África. Então, em termos de alimentação, eu não achei estranho. Achei tudo parecido.

Você ganhou a torcida do Vitória por prometer gols antes da partida e cumprir. Como você conseguia?

A Nigéria é um país em que os atletas gostam muito de treinar, os africanos gostam muito de treinar. Talvez esse tenha sido o meu segredo. Me lembro que na minha época do Vitória acabava o treino e eu pedia aos zagueiros para ficar um pouco mais comigo, treinando mais um pouco. Eu acredito que através do treinamento você chega a perfeição. E por isso eu tive a felicidade de adivinhar até o resultado. Me lembro que uma das coisas que levaram a torcida a ficar louca comigo era que eu falava: “amanhã vou fazer dois gols”. Eu não sou Deus, mas ia lá e fazia. Era uma coisa que ninguém entendia. O segredo era porque eu confiava em Deus e ficava lá treinando cabeceio, chapa. Foi uma época realmente fantástica.

No meio de tantos jogos e clássicos você viveu alguma história engraçada?

No campeonato baiano de 84 eu vi uma cena que eu nunca tinha visto na minha vida até hoje. No jogo do Vitória contra o Botafogo-BA, eu fui disputar a bola com o goleiro e caí. Eu fiquei no chão perguntando: “não vai apitar não? E o juiz disse: “levanta, levanta Ricky”. Aí o goleiro, com medo de que o juiz apitasse, tentou sair jogando rápido. Eu ainda estava no chão, com os braços abertos, quando ele jogou a bola e ela veio na minha direção. Deitado, eu testei para o fundo do gol. O Fernando Vannucci, que era da Rede Globo na época, levou dois meses falando desse gol. Todo dia ele falava.

Você foi goleador em todos os clubes que passou, mas teve poucas chances na seleção da Nigéria. Inclusive ficando fora da Copa de 94. Você ficou com alguma mágoa da seleção?

Não. Eu estava bem no time, representando meu clube com seriedade. Aí viajava para defender a Nigéria. Quando chegava lá você não sabia que dia ia treinar para representar a seleção, nem o hotel onde ficaria. Às vezes nem iam te buscar no aeroporto. Era tudo muito bagunçado. Isso dificultou minha ida para a Nigéria.

Você passou por vários clubes do mundo e teve vários treinadores. Tem algum que ficou marcado, que foi especial para você?

Aymoré Moreira, Fito, Wilson Lago, Carlos Gainete, muitos treinadores, mas Aymoré Moreira marcou pelo sua simplicidade e franqueza. Ele chegava e dizia: “hoje você não está bem, faça isso. Hoje você está bem”. Quando eu estava no processo com a diretoria do Vitória para me regularizar ele dizia: “quando você estrear, vai fazer gol”. Eu estrei logo em um BaVi e fiz gol.

O Bahia foi uma grande vítima sua. Afinal, você fez gols em todos os Ba-Vis. Qual comparação você faz entre o Bahia de hoje e o daquela época?

O Bahia é um grande clube brasileiro, e todos nós sabemos disso, mas precisa olhar mais para os anseios da torcida. Se a gente olhar hoje, qualquer jogo na Arena Fonte Nova que a torcida não queira ir, dá cinco mil pessoas. Acho que essa torcida deve ser respeitada. Peço para que os dirigentes olhem mais para os anseios dos torcedores. O Vitória está levando vantagem sobre o Bahia porque o Vitória está sabendo contratar, essa é a diferença. Acho que a única coisa que os clubes devem fazer é contratar jogadores que cheguem para resolver. Teve época que o Bahia tinha 50 jogadores. Para que isso? No máximo 25 jogadores no elenco está bom.

Você tem saudade da época de jogador?

Tenho saudade de algumas coisas. Não digo que hoje os jogadores não prestam, mas naquele tempo o jogador se entregava bastante ao trabalho que faziam. Hoje os jogadores ganham bastante, mas não querem treinar, aperfeiçoar aquilo que podem levá-los ao resultado. Se está ganhando muito, por que não treinar? Não entendo isso. Naquela época os jogadores não saiam em quatro, cinco meses. Às vezes o jogador chega e vai embora. Então, não tem aquela ligação com o clube. Hoje o Vitória é uma grande instituição. Eu chego lá e fico olhando. Tem tudo. Na minha época até para almoçar era complicado. Tinha dia que não tinha treino porque a Kombi quebrava, ou porque não tinha material mesmo. Hoje eles tem tudo e não querem treinar.

Você continua recebendo o carinho dos torcedores na rua?

Em todos os lugares que eu passo eles ainda lembram dos gols que eu fiz e da minha dedicação pelo clube. Eu me entreguei e acho que isso é o mais importante. Muitos torcedores mais novos me adicionam no meu Facebook e falam comigo. Muitos não me viram jogar, mas eles tem essa informação do que eu representei para o clube.

Com informações do iBahia.com

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